2 de março de 2025

Nos 80 anos da morte de Mário de Andrade, seus relatos da jornada amazônica em 'O turista aprendiz' revelam uma pessoa à frente de seu tempo



Nestes ‘apontamentos de viagem’, como dizia meu avô Leite Morais, às vezes eu paro hesitando em contar certas coisas, com medo que não me acreditem (Mário de Andrade, 1927)

Mário de Andrade morreu aos 52 anos em 1945. Para os parâmetros do século XXI, muito cedo. Seu legado, no entanto, é digno de uma dinastia. Romances, poemas, ativismo cultural, implementação de políticas públicas culturais, um acervo de mais de 30 mil obras, e uma pesquisa etnográfica colhida em dezenas de viagens pelo Brasil.


Foi uma dessas viagens, para a região Amazônica, que Mário transformou, a princípio sem grandes pretensões, no maior clássico brasileiro de literatura de viagem: O turista aprendiz.


Em O turista aprendiz, Mário de Andrade relata a viagem que fez pela Amazônia em 1927 na comitiva da amiga e mecenas Olívia Guedes Penteado. A prosa leve, ora reflexiva, ora irônica, sugere um escritor entregue à experiência e à realização do sonho de conhecer o Brasil.


Publicado pela primeira vez em 1970, o livro é relançado pela Tinta-da-China Brasil, em edição que recupera o manuscrito original de 1943, revisto pelo autor, e é acompanhado de 14 fotos tiradas com sua "codaque" ao longo da viagem e um mapa detalhado do trajeto percorrido.


A nova edição, organizada e apresentada por Flora Thomson-DeVeaux, diretora de pesquisa da Rádio Novelo e tradutora do livro para o inglês, conta com capa dura e design assinado pela artista portuguesa Vera Tavares.

O olhar de aprendiz sobre a Amazônia


Há uma espécie de sensação ficada de insuficiência, de sarapintação, que me estraga todo o europeu cinzento e bem-arranjadinho que ainda tenho dentro de mim. (Mário de Andrade, 1927)

A viagem aconteceu cinco anos depois da Semana de Arte de 22. Mário de Andrade embarcou no Rio de Janeiro rumo a Belém do Pará. A bordo de um vaticano — embarcação a vapor típica da região, que fazia paradas periódicas para abastecimento de lenha — navegou pelos rios Amazonas, Solimões e Madeira, até as fronteiras do Peru e da Bolívia. Se hoje a Amazônia ainda oferece desafios de acesso aos visitantes, em 1927 uma viagem dessas era uma epopeia.


Os contratempos que todo mundo experimenta quando viaja não faltaram. Ele constata que levou itens errados na mala e para dar conta do calor, decide mandar fazer novas roupas em Belém, de linho branco. O escritor se besunta de repelente para evitar as picadas de uma grande fauna de mosquitos: “é um desespero [...] Pela primeira vez, não resisto e me emporcalho da tal pomada inglesa”.
Sem pretensões de uma pesquisa etnográfica rigorosa,

 como faria na sua viagem ao Nordeste no ano seguinte, o autor concentrou em menos de 200 páginas um impressionante manancial de informações sobre um Brasil até então completamente desconhecido. Mário aproveita para conversar com a população ribeirinha, provar frutas como graviola e guaraná, peixes e pratos típicos como salada de abacate, banhar-se nas praias, remar barquinhos e encalhar num banco de areia, cantar ao luar, beber uísque com água de coco. Ele não poupa a si mesmo, e nem suas companheiras de viagem, em comentários divertidos com seu olhar de “aprendiz”.

Uma viagem que inspira gerações


Nos orgulhamos de ser o único (grande?) país civilizado tropical… Isso é o nosso defeito, a nossa impotência. Devíamos pensar, sentir como indianos, chins, gente do Benin, de Java… Talvez então pudéssemos criar cultura e civilização próprias. Pelo menos seríamos mais nós, tenho certeza (Mário de Andrade, 1927).

Nos registros do diário de viagem, revela-se a personalidade e o senso de humor de Mário. O tom íntimo por vezes lembra a correspondência do escritor, que ao lado desses diários de viagem tem ganhado destaque nas últimas décadas, não apenas pela importância documental, mas por seu alto valor literário.


Consagrado como um clássico da literatura de viagem no Brasil, O turista aprendiz é um dos livros mais referenciados de Mário de Andrade. Ele vem frequentando cabeceiras de diversas pessoas através de décadas, e influenciando artistas para além das letras. O título dá nome ao documentário da fotógrafa Maureen Bisilliat, em 1979; a uma coleção de roupas do estilista Ronaldo Fraga em 2010; e ao longa-metragem de ficção de Murilo Salles, exibido na 48ª Mostra de Cinema de São Paulo. Também serviu de base para a construção do samba-enredo da escola de Samba Mocidade Alegre em 2024 — ano em que a agremiação se consagrou campeã do Carnaval paulista.


O entusiasmo do escritor com o país e a diversidade de suas culturas e paisagens nos dão fôlego para encarar os dilemas culturais, políticos e sociais que o Brasil vive hoje. Como destaca Flora Thomson-DeVeaux em sua apresentação, O turista aprendiz não é apenas um documento literário, mas também um testemunho da aposta de Mário de Andrade na cultura como uma chave para enfrentar os impasses do Brasil.


A leitura de O turista aprendiz ganha nova relevância no cenário contemporâneo, em que a Amazônia está no centro das discussões sobre mudanças climáticas, desmatamento e sustentabilidade. Um clássico.


27 de outubro de 2026
Como podemos propor outras formas de convivência entre humanos e não-humanos? É possível cultivar amizade e parentesco entre as espécies? O que podemos aprender com cavalos e éguas? Com esses questionamentos, as artistas-pesquisadoras Aline Bernardi e Dani Lima convidam o público para assistir ao espetáculo “Equina”, que volta em cartaz, de 07 a 29 de novembro, no Espaço Cultural Municipal Sérgio Porto/Sala Preta. A narrativa afetuosa busca pensar sobre políticas de cuidado e a manutenção da vida cultivadas a partir dessas relações interespécies. A criação é um desdobramento da pesquisa de doutorado de Aline, que também está em cena, no Programa de Pós-Graduação em Artes da Cena da UFRJ. “A aposta desta obra é investigar de forma fabulatória como as ecologias relacionais e as alianças interespécies podem propor modos de reparação micropolítica em um mundo danificado”, explica a bailarina e pesquisadora Aline Bernardi. “A criação é um desdobramento da minha pesquisa de doutorado, que fabula memórias da relação de amizade e parentesco que tenho com cavalos e éguas”, completa. As raízes desta pesquisa remontam à infância de Aline, quando a artista morou na zona rural do oeste paulista, e teve uma convivência íntima com cavalos de uma fazenda onde seu pai trabalhava. A partir dessa história pessoal e dos diálogos travados com as pesquisadoras Donna Haraway, Vinciane Despret e Anna Tsing, “Equina” busca articular as três dimensões da ecologia, segundo o filósofo e psicanalista Félix Guattari: a das subjetividades, a social e a ambiental, para especular sobre o papel das alianças interespécies na regeneração da vida. “Fazemos um convite para praticarmos parentesco e amizade com outras espécies. Queremos questionar o uso exploratório e extrativista dos cavalos e das éguas, assim como de outras espécies, no processo de civilização humana, que levam às consequências da crise socioambiental que a gente está vivendo. O que me interessa é convocar nossa espécie a cultivar imaginários de interdependência e conexões colaborativas com as outras espécies e com tudo que está vivo em nosso planeta”, observa Aline. A pesquisadora também aponta seu interesse em dialogar com as cosmovisões indígenas, que criam alianças afetivas com outras espécies, conceito proposto por Ailton Krenak, e cultivam relações de respeito com animais, vegetais, rios, florestas, montanhas. Serviço Espetáculo: Equina Temporada: de 07 a 29 de novembro 2026 Espaço Cultural Municipal Sérgio Porto/Sala Preta: Rua Visconde de Silva s/nº, ao lado do nº 292 – Humaitá. Acesso somente por escadas. Telefone: (21) 2535-3846 Dias e horários: sábados, às 19h, e domingos às 18h. Ingressos: 60 (inteira) e R$ 30 (meia-entrada). Capacidade: 25 pessoas Duração: 1h Classificação etária: 18 anos Venda de ingressos: https://bileto.sympla.com.br/event/128177 e na bilheteria do centro cultural, de quarta a domingo das 15h às 21h.
27 de outubro de 2026
A comédia “O Nome do Bebê”, com Bianca Bin no elenco e direção de Elias Andreato, chega ao Teatro Axia Casa Grande, no Leblon, para uma curta temporada de 5 a 27 de novembro de 2026. As sessões serão às quintas e sextas-feiras, sempre às 20h, segundo a programação oficial do teatro. Na trama, Vicente e Anna, que esperam o primeiro filho, vão jantar na casa da irmã dele e do cunhado, com a presença de um amigo de infância, para anunciar o nome escolhido para o bebê. Vicente faz uma brincadeira infeliz e diz que a criança vai se chamar Adolfo. A partir daí, a conversa vira uma discussão crescente, que traz à tona memórias, ressentimentos guardados, preconceitos e contradições do grupo. Segundo a apresentação do espetáculo, a montagem discute a dificuldade de escuta nas relações mais próximas e a necessidade de aceitar o outro com suas diferenças. A versão brasileira, de acordo com o teatro, soma mais de 100 apresentações entre São Paulo e outras capitais antes de chegar ao Rio. Serviço • Espetáculo: O Nome do Bebê • Temporada: de 5 a 27 de novembro de 2026 • Dias e horário: quintas e sextas-feiras, às 20h (abertura da casa 1h antes) • Local: Teatro Axia Casa Grande — Avenida Afrânio de Melo Franco, 290, Loja A, Leblon, Rio de Janeiro (RJ) • Classificação: 12 anos. Menores a partir de 10 anos entram acompanhados dos pais ou responsáveis. Crianças de até 1 ano e 11 meses no colo do responsável não pagam. • Ingressos: à venda pela Eventim, canal oficial indicado pelo teatro, e na bilheteria. Valores na página de venda. • Informações: (21) 2511-0800